sexta-feira, 26 de junho de 2009

Farah Jackson ou Michael Fawcett


Eu acordei, o Michael não.

E nem vai. É verdade, morreu mesmo. Confesso que pensei na possibilidade de um golpe publicitário para promover o maior retorno ao palco da história, algo grandioso, mega, hiper, super. Bem ao estilo dele.

Estava eu escrevendo um paper do mestrado numa sala de espera fedendo a mijo na universidade da Isa. Parêntese explicativo. O que fazia eu numa-sala-de-espera-fedendo-a-mijo-na-universidade-da-Isa? Meu carro quebrou, vivo de carona agora. Está aquecendo - o carro, não eu. Mecânico diz que estragou um fiozinho escondido entre o painel e o motor. US$ 70 o fiozinho. Ufa, eu posso pagar. US$ 500 para desmontar o painel. Ladrão, foi o primeiro pensamento, e eu fazendo mestrado...

Não tenho US$ 570, a Isa tem. Pesquisa de internet. Antes Jesus era a resposta, agora o Google tem a resposta (antes que eu provoque outro cisma entre primos, digo aos cristãos em geral e aos católicos em específico que a frase é da Isa. Pedra nela, povo, pedra nela!). Diagnóstico do mecânico correto. Preço do fio varia de US$ 50 a US$ 90. Mão-de-obra de US$ 500 a US$ 800. Oba, um site ensina tim-tim-por-tim-tim como desmontar e montar o painel. Tempo estimado do serviço para quem tem noções de mecânica: oito horas. Sem tirar. Moleza, vou fazer essa porra, aquele feirense de Asheboro tá achando que o dinheiro da minha esposa é capim? Isa: "pago US$ 1,000 para você fazer tudo certo. Se der errado, eu nunca mais cozinho". Nunca alguém recebeu US$ 500 tão merecidos como o feirense de Asheboro. E fecha parêntese.

De volta à sala de espera. Alguém mija naquelas plantas de plástico, só pode ser. Nada pode feder tanto. Ou então o carpete foi instalado em 1838, quando a universidade foi inaugurada. Ao menos o ar-condicionado funciona, 30 graus lá fora. E aquecendo - agora eu, não o carro, que está no mecânico e fica pronto esta tarde. Eu escrevendo um texto sobre uso de tecnologia em sala de aula e ouvindo a Jovem Pan. A CBN não transmitiu o Brasil e África do Sul (eu juro que ainda vou postar sobre minha relação com o futebol). Anuncia o Nelo Rodolfo: o site da Folha está dando que Michael Jackson morreu. As navegações e desinformações entre sites dos Estados Unidos, Inglaterra e Brasil nas duas horas seguintes eu guardo para dividir nas aulas de jornalismo quando voltar. Se é que ainda vai existir faculdade de jornalismo.

O engraçado é que há poucos dias estávamos em casa vendo o DVD que comemora os 25 anos de Thriller. A Isa queria mostrar para a Marisa a dança maluca que ela sempre vê no filme "De repente 30". A Florzinha ama o filme, é sobre uma menina de 13 nos anos 80 que acorda com 30. Numa das cenas toca Thriller numa boate e a guria ensina a dança para todo mundo. Quem já viu Thriller pode prever que a história não ia dar certo e a Marisa passou três dias dormindo na nossa cama. E o gato. E também as netas de pelúcia Farbulous e Milky. Chute e cotovelada noite a dentro.

Fiquei com pena mesmo foi da Farah Fawcett. Certamente foi muito mal assessorada, que péssimo dia para morrer.

Beijos e saudades,

Imagem: cinecartaz.publico.pt

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Novo endereço




Olá pessoas!

Esta é a primeira postagem no novo endereço. É, mudamos, foi um corre-corre, explico já (já não quer dizer hoje, tá?). Anote aí e mande uma carta:

24-B Kingsway Road
Asheboro, NC
USA
27203

Neste exato momento Isa, Marisa e o Gato dormem no sofá diante de mim. Não fosse eu baiano, levantaria para pegar a máquina fotográfica e postar a imagem, mas dá uma canseira... E ainda tem o risco de a bateria estar descarregada, o que me faria levantar e dar quatro passos por nada.

Estávamos os três (o Gato dormiu o tempo inteiro) vendo o Brasil jogar contra o Paraguai. Só a saudade mesmo para me fazer ficar pacientemente diante de uma tela vendo um bando de caras correndo atrás de uma bola. Mas até que valeu a perda de templo, afinal, ganhamos e estamos em primeiro nas eliminatórias.

Há aqui no nosso condomínios, mudamos de um prédio para o outro no mesmo complexo, uma pequena comunidade de latinos afixionados por futebol. São todos maridos de professoras que estão aqui pelo VIF, o mesmo programa que trouxe a Isa, e a mim na mala, ou como mala - não sei ao certo. São dois chilenos, um panamenho, um argentino e um colombiano.

Como a Isa mudou para cá nove meses antes de mim, todas esperavam com ansiedade a chegada do 'brasileiro'. Ao que parece, o Brasil é respeitado no mundo do futebol e todos esperavam a minha vinda. Eu não sei como descrever a decepção do grupo com a minha não paixão por futebol.

Lembro claramente das expressões deles no nosso primeiro contato. A Isa, pouco antes e muito educadamente, avisou que eu não entendia muito de futebol - o que já é uma licença poética, porque não consigo até hoje entender porque um jogador não pode ficar ao lado do goleiro esperando a bola, é o melhor lugar para fazer o gol. Um chileno, desavisado, comentou com o argentino: 'o marido da Isa está aqui?' E eu ouvindo ao fundo. 'Tá, tá sim, mas ele não gosta de futebol...' Como assim não gosta de futebol? Ele é ou não é brasileiro?'.

O que ficou de tudo isso? Isolamento. Os caras se reúnem para ver todos os jogos juntos, um deles tem todos os canais de esportes do planeta na TV a cabo. Pô, eu não sou afixionado por futebol, mas gosto de uma cervejinha de vez em quando e de cochilar no sofá.

Beijos, saudades e uma seleção comandada por um elefante de orelhas gigantes só podia voar longe.

Imagem: eupodiatamatando.com

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Opa, agora é comigo



E depois de criar a Governmental Motors, a maior estatal da indústria automobilística, Barackão pode assumir o controle de outro mega-negócio, o Wal-Bama.

Não sei se a idéia já circula pela cabeça do criador da expressão O Cara, mas aqui nesse mundinho da Carolina do Norte a coisa começa a apertar e sou capaz de dar a sugestão para o mega-power-hiper-porreta-presidente. Desde novembro, quando comecei a trabalhar no mercado do Walter, tenho 32 horas semanais de labuta. Tinha. Semana passada, quando colocaram a escala no mural, eu estava com apenas 28 . Eu trabalho quatro dias por semana, oito horas em cada um deles, perdi uma.

A explicação é de que o corte foi geral no Wal-Mart, todos os funcionários perderam uma hora diária de trabalho por conta da crise, e a redução vai durar o menor tempo possível. Você tem noção do que isso significa? O Wal tem mais de dois milhões de funcionários. É como se toda a população de Curitiba fosse, como eu, funcionária do supermercado. Vão ser milhões de dólares fora da economia toda semana.

Mas isso não é o pior, porque o meu salário sequer existe no orçamento doméstico. Vai integralmente para pagar o mestrado. Melhor, parte dele, porque é tão pouquinho que tenho de complementar bem mais do que a metade das mensalidades com as verdinhas da minha quase extinta poupança. Para pagar o mestrado a Isa não libera a poupança dela, então, tive de trabalhar.

O que eu quero mesmo dizer é o que aconteceu ontem. Fui mandado embora. Calma, também não fui demitido. Ainda. O fato é que eu, aliás, todos os funcionários da minha loja foram 'convidados' a encerrar seus turnos mais cedo. O Walter faz monitoramento instantâneo das vendas. Começamos o dia 12% abaixo da média, mas a situação foi piorando. Lá pelas quatro da tarde a queda nas vendas bateu 20% e os gerentes começaram a buscar voluntário: 'gente, quem quer ir embora mais cedo?". Do jeito que caminham as coisas aqui - tudo está subindo de preço, ninguém pôs o pescoço no laço. Menos horas trabalhadas, cheque menor na quinta-feira.

Meia hora depois, a confirmação: todos tinham de reduzir a carga horária do dia porque as vendas continuavam caindo. A lógica da decisão: menaaaaaas vendas, menor a necessidade de gente para pôr mercadoria na prateleira, não há porque manter funcionários na local. Pegue seu boné e vá para casa, porque a gente precisa reduzir a despesa.

Na equipe em que eu estava trabalhando ontem - éramos seis (ainda existe a coleção Vaga-Lume? Que saudade...) - todos tinham de ir embora duas horas mais cedo e um deveria ser voluntário para abrir mão de três horas de trabalho. Aquela consternação geral. Como o pessoal lá é pai de família e o silêncio sepulcral me atormenta, resolvi me oferecer para perder uma hora a mais, já que aqui sou na verdade dono de casa. Eu trabalharia até 10 da noite, fique até sete.

Isso tudo para chegar ao ponto real: o terror de todo homem casado.

Meu Deus, vou embora mais cedo?!?!?!? Chegar em casa com antecedência e sem avisar é um risco para qualquer casamento. Pode confessar, não há quem rode a fechadura do apartamento duas, três horas antes do horário previsto sem o, digamos, ânus na mão. Que cena me espera do outro lado desta porta?

É por isso que eu nunca chego sem avisar. Sou daqueles que prefere não saber. Há maridos que se sentem ridicularizados quando descobrem, porque foram efetivamente os últimos a saber. Pois eu não quero ser o útlimo a saber, eu quero simplesmente nunca saber. Se você sabe, por favor, guarde para você. Amigo que é amigo nunca conta. A ignorância é o segredo do casamento. Pode ir atrás dessas relações que duram apenas três, quatro anos. Lá tinha um marido que queria saber de tudo, investigou demais. Eu não sei de nada e estou casado e feliz há quase 15. Pelamordedeus, não me conte.

Sete horas, tenho de bater o cartão e voltar mais cedo. Começo a dirigir para casa, chego lá em 15 minutos, é tempo mais do que suficiente para impedir o flagrante. Bato o telefone para a Isa. Antes, aliás, peço licença ao Nelson Rodrigues para bater o telefone. A frase do senhor das minhas perdições é perfeita: bateu o telefone para casa.

Bato o telefone para a Isa. Secretária eletrônica. Mau sinal (sem trocadilho, o celular operava perfeitamente). E eu dirigindo. Já andei duas milhas, só faltam nove. Ligo de novo, desligado. Piorou. Puta merda, terceiro semáforo aberto logo hoje, vou chegar ainda mais cedo. Telefono mais uma vez. Só faltam três milhas, menos de cinco minutos. E nada. Chego ao condomínio, o carro da Isa está diante do prédio. E nada de atender o telefone. Luz do quarto acesa, dá para ver pela persiana. Demais para mim. Nem parei, passei direto pelo estacionamento e fiz o retorno. De volta ao Wal-Mart, fazer logo as compras do mês. Pronto, emprego e casamento salvos.

Beijos e saudades,

imagem: hpp.ajato.com.br

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Meu primeiro Valisère



Fui pego de surpresa.

Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Normal, eu sou o encarregado oficial de toda a roupa suja e a Isinha as produz aos montes. Pelamordedeus, quem usa calça jeans só uma vez além da minha esposa? Eu uso duas, três, quatro, cinco, até o dia em que fica difícil tirar do corpo porque ela adquiriu uma consistência meio que sólida. É o famoso ponto de andar sozinha. As minhas só não andam sozinhas porque não conhecem as redondezas e muito menos falam inglês. São todas (duas) brasileiras, brasileiríssimas, da C&A.

Consulte a história do jeans e você vai descobrir que ele foi desenvolvido para trabalhadores braçais, portanto, são resistentes. Esse hábito de usar calça jeans só uma vez me revolta, um puta desperdício de água, eletricidade, sabão, amaciante. É, ainda tem de pôr amaciante, um líquidozinho azul inútil que foi criado para tirar dinheiro dos pais de família. Tudo bem, aqui é uma mãe de família, mas como eu sou o dono-de-casa-com-hífen-para-dar-importância, eu prefiro o termo do lar (eu ainda vou ter a chance de responder 'do lar' em um censo), deixo registrada a minha discordância da despesa. Se é por causa da cor, vamos de verde, compra absinto. Lavar calça jeans a cada usada é quase um crime ambiental, deviam mandar o Ibama atrás da minha esposa. Me passa o 0800 para denúncia anônima?

Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Embora seja normal, não é tão rotineiro. E vou entregar mesmo, não estou nem aí: embora ela ponha o jeans para lavagem após vesti-lo por apenas cinco, seis horas e olhe lá, o mesmo zelo não acontece com o sutiã. "Pode usar duas, três vezes sim". Eu fiquei chocado. Sabe aquelas coisas que podem acabar com o relacionamento, tipo apertar pasta de dente no meio ou deixar camisinha usada na pia? Para mim, é repetir sutiã. E olha que eu inventei a meia descartável quando morava sozinho num quartinho-de-fundos-com-teto-de-eternit-mais-baixo-que-eu: comprava um pacotão no supermercado das mais vagabundas e usava por usa semana de um lado, outra semana pelo avesso e jogava fora (cada pacote dava seis meses). Mas meia a gente usa no pé e nem chulé eu tenho. Repetir sutiã? Ele fica lá em contato direto com uma zona sensível, de alto interesse anatômico e recreativo. É o fim.

Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Dou de cara não, ele pula da máquina. A secadora é um tremendo chupa-energia e tento ao máximo reduzir o consumo, mas é impossível não ligá-la porque não temos varal aqui. Então, encho a máquina até o tampo. A expressão certa era até o cu fazer bico, mas como o Fábio Pannunzio reproduz alguns texto do Oraite em seu blog (vá lá, aqui. Aproveite e veja a entrevista com o dr. Hosmany Ramos, o cara que, com um século de atraso, inspirou Stevenson), que é coisa de jornalista gente grande, tenho de me vigiar para não escrever palavrão. Esse cu de agora não conta, porque foi necessário. Foi, digamos, um cu explicativo. Fábio, não fique acanhado, como é no seu, se quiser pode mexer no cu antes de liberar para todo mundo, viu?

Agora vai.

Abri a secadora aborrotada até o tampo e pula uma peça branca. Com reflexo digno de goleiro do Fluminense de Feira consegui imprensá-la com o joelho. Ficou, o paninho, entre o joelho e a lavadoura de roupas, que fica debaixo da secadora, que por sua vez está acomodada sob o sabão em pó (que aqui é líquido), o amaciante e a folhinha de papel desmagnetizadora (essa eu explico na próxima roupa suja). Mas o joelho titubeou e lá foi a roupa para o chão. Bati o olho em cheio, com ele estirado por inteiro no chão: um sutiã. E não é da Isa. Como eu (ainda) não estou lavando para fora, ficou o óbvio: é da Marisa. Sou pai de alguém que usa sutiã.

Não que eu não soubesse, foi inclusive minha a idéia da compra. Se não foram abelhas, está na hora de comprar um sutiã. Eu só não estava pronto para lavá-lo.

Beijos e saudades,

imagem: www.modaeconsultoria.com.br

terça-feira, 26 de maio de 2009

Facebook, Twitter e outros



Semana passada foi recorde.

Recebi dois convites para o Twitter, quatro para o Facebook e um para aderir ao UNYK. Esse último não faço a mínima idéia do que seja.

Eu acho o máximo receber os convites. É prova de que ainda lembram de mim. Sim, porque o blog é o meio de comunicação mais falho que existe. A informação só vai, não tem feedback. Ou melhor, de vez em quando alguém põe um comentário, mas como o Oraite peca por liberdade (é aberto, sem moderação, sem contador, permite comentário anônimo) não tenho como saber quem manda a mensagem e sequer se alguém o lê. A não-resposta me consome. Fico com medo de estar perdendo tempo de estudo do mestrado para escrever aqui e ninguém ler. Mas isso é assunto para o divã da dona Isabelita. Consultas das 23h30 à meia noite. Preço a combinar. Em geral, pago em serviço (doméstico, não sexual como você pensou).

Os convites. Recebo-os todos com carinho, mas nunca aceito. O que não entendem é que eu só fisicamente estou na primeira década do século 21. Minha mente está lá, parada e pairando na década de 80. Antes até, nos anos 60. Eu tenho de confessar que até hoje não comprei a ida do homem à lua. Meu cunhado na adolescência fazia uns videozinhos com uma câmera JVC super peba tão ruins quanto aquele. De mais a mais, vê lá se Neil Armstrong é nome de astronauta? Se o Neil Armstrong tivesse participado da mítica formação que gravou Kind of Blue teria meu crédito. É uma boa alcunha para um pioneiro do Jazz, mas jamais para alguém que seria o primeiro a pisar na lua. Aliás, eu mesmo já pisei na Lua diversas vezes, sem querer, registre-se. É uma cadelinha poodle que seu Fernando e dona Nilma paparicam em um dois quartos com reversível na Nossa Senhora da Saúde. Foi comprada por mim e meu irmão há uns 15 anos. A gente queria uma poodle branca para presentear mainha. Vimos os anúncios do A Tarde e fomos até a casa da dona-me-esquece ver a ninhada. Era uma casa na Pituba, se não me engano. Na época, Pituba era em Salvador um bairro de gente honesta e distinta. Lindos todos os filhotes, mas eram meio amarelados. Dona-me-esquece, doida para se livrar dos 214 cagões, garantiu: é só a primeira penugem, depois ela vai ficar branquinha, branquinha. E está lá a Lua tão branca quanto o cavalo de Napoleão.

Eu sou fã de tecnologia, só não consigo acompanhá-la. Até entrei no Orkut uma vez. Durou uma semana. Na época eu dava aulas em faculdade e se um professor quer perder a privacidade basta oferecer uma ferramenta virtual de comunicação a alunos na casa dos 20 anos. Levei dois meses para conseguir o orkuticídio. Esse sites são ótimos para te aceitar, mas não querem te deixar sair por nada. Tecnologicamente eu estou na era do fax. Que aparelho fantástico, que invenção maravilhosa. O cara que inventou o fax tinha de ganhar o Nobel, ser nomeado Sir pela rainha, jantar com o Barackão, churrasco com o Lula, pudim de leite na casa de vovó Maria. E-mail é fácil, não existe fisicamente. Mas o fax, pense bem, o fax! Eu penso no fax e fico deslumbrado. Você manda um papel daqui e ele se materializa do outro lado. Em qualquer lado, dá para mandar um fax até para Feira de Santana, onde até hoje o gerador movido a querosene é desligado às 22h00. E você ainda fica com o original, ou seja, o fax transmite e duplica a mensagem. Para mim, parou no fax. Tudo que veio ou vier depois perdeu o sentimento de novo.

Quer me irritar? Me manda uma mensagem de texto no celular que exija uma resposta. C-A-R-A-L-H-O, como é que alguém consegue escrever no celular? O meu telefone é moderno. Tem cartão de memória, toca MP3, tira fotos com qualidade e o diabo aquático. Ganhei no dia em que desembarquei na terra-da-galinha-que-põe-ovo-em-caixa. Eu fiz curso de datilografia em máquina manual lá na Comercial Norte de Taguatinga, no Sarmento, pelamordedeus, como é que eu vou digitar mensagem em telefone? É como escrever à máquina só com dois dedos, porque com os outros você tem de segurar a Remington. Você já tentou datilografar com os dois polegares? Faça a imagem mental, porque é essa a sensação toda vez que tenho de responder a uma mensagem de texto.

Tenho aqui uma amiga alemã. Nos conhecemos no curso de inglês, que acabou no começo deste mês. Na minha turma nosso país já está no primeiro mundo. Brasil, Suécia e Alemanha formavam um trio que mais perturbava as aulas do que estudava. Ao menos éramos obrigados a falar inglês, então, objetivo cumprido. Mexicanos também se agruparam, latinos em geral formaram seu coletivo assim como os não-acidentais, exceção para os vietmanitas, que ficaram juntos em um quinto grupo. Como entrei no curso depois de 10 dias de iniciado e ainda cheguei atrasado na primeira aula, dei uma escaneada geral e percebi as panelas já montadas. Fiz a opção que me pareceu mais sensata: sentei ao lado da mulher mais bonita. Era a Alemanha de Claudia Schiffer.

O fato é que virei conselheiro da alemanzinha. Ela mal completou 20 anos e quando perguntou quantos anos eu tinha fui logo dizendo "tenho idade para ser seu pai". Pingo no i que eu sou casado e a patroa lê o Oraite. Pois sim, ela me pede dicas nas abordagens aos rapazolas daqui, mas sempre via texto de celular. Caramba. Ela me manda uma pergunta. Eu tô tentando terminar a segunda palavra da resposta, letra por letra, cada tecla tem várias opções de letras - fora os números e outros símbolos, uma novela. Chega outra mensagem. Quando eu consigo terminar uma frase inteira já tem mais quatro perguntas! Envio a resposta e, acreditem, em 30 segundos chega a resposta com mais de 20 palavras. E umas abreviações loucas que eu tive de entrar no Google para entender. Eu levei oito minutos para digitar cinco palavras... Desisto e disco para ela. Meu celular é tão moderno que até faz ligações.

Beijos e saudades,

Imagem: ufoportugal.blogspot.com

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O frentista, o médico e o Pannunzio



Olá pessoas,

Quando começei a postar no Oraite tomei a decisão de não citar terceiros, apenas o G10 - Isa, Marisa, seu Fernando, dona Nilma, Teo, Lu e Vitão, Lore, Alice e Vini. Ah, vá lá, G11, porque tem o Gato. Bom, algo que aprendi aqui na terra-da-descarga-eletrônica foi a morrer de medo de ser processado e, como entre os defeitos de um blog aberto como o Oraite, está o de ser lido por quem quiser, resolvi evitar citações a terceiros para poupar desagrados e desagravos.

É o medo de processo que faz, por exemplo, os médicos daqui cada vez mais distantes dos pacientes. O doutor faz de tudo para seque tocar nos pacientes durante as consultas - medir pressão e exames afins são feitos por enfermeiros e antes da entrada do médico, que recebe tudo na tela do computador. Se o médico precisa ver o paciente sem roupas uma enfermeira é chamada para acompanhar o procedimento. E é essa a maior revolta da Isa, frequentadora assídua de consultórios norte-americanos.

Isinha teve de desenvolver uma nova tara aqui e escolheu os médicos. A fixação oficial é frentista. Quanto a gente viaja de carro no Brasil ela não pode ver um posto que me ordena abastecer. Meu bem, mas a gente só gastou 1/4 do tanque. Não tem problema, amor, é sempre mais seguro andar com o tanque cheio.

Aqui não há frentista, os postos, como tudo, são do tipo faça você mesmo, é a sociedade do sozinho vencerei. É por isso que a Isinha sempre me pede para abastecer, mesmo quando estamos no carro dela. Lá vou eu, desco e fico com aquela mangueira enorme na mão. Só que enfiar a mangueira no tanque da Isa não é tão simples. Se ela não deixar, a portinha nem é aberta e fico eu lá com a mangueira na mão pedindo, libera o tanque, libera o tanque. Depois de meia hora fazendo doce, ele permite. Ponho a mangueira no tanque e começo a abastecer. Tá bom esse tanto? Não, não, pode pôr mais. Tem certeza? Tenho sim, vai botando, vai botando. E agora, já deu? Não, põe mais, põe tudo, enche até a tampa.

Pois sim, acontece que eu fui citado em outro blog, e sou obrigado a falar de um terceiro. Fábio Pannunzio. Exijo meu direito de resposta. Como no Brasil o Supremo revogou a Lei de Imprensa, vou fazer uso da minha prerrogativa de viver temporariamente sob o guarda-chuva da First Amendment, que me garante pleno freedom of speech. Freedom é a palavra mais sagrada do dicionário norte-americano. Eles enchem o peito para falar da 'nossa liberdade'.

Fábio achou por bem, correndo o risco de danificar a imagem pública de repórter investigativo, republicar alguns textos do Oraite em seu blog (visite: www.pannunzio.com.br). Fábio, para quem tem memória curta, é autor de belos trabalhos do jornalismo brasileiro, como localizar a Jorgina do INSS e detalhar por onde andou o PC Farias quando fugiu do Brasil. A reportagem que mais me agrada é uma da década de 90, quando Pannunzio, apurando a máfia da grilagem em Brasília, conseguiu registrar a área da Esplanda dos Ministérios para venda.

Visite o blog do Fábio aqui.

Beijos e saudades,

Imagem: pecademissaoevatrabalhar.files.wordpress.com

Feriado é dia de...



Hoje é feriado por aqui. Memorial Day. Dia de lembrar dos mortos em guerras, aqueles que "fizeram o sacrifício maior lutando pela nossa liberdade". Há também, em novembro, o Veterans Day, para aqueles que também brigaram pela "nossa liberdade" mas foram sortudos o suficiente para retornar fora do caixão.

Eu não entendia a necessidade de dois feriados para o mesmo tema até compreender que a intenção do Veterans Day é levantar o astral dos ex-combatentes. Sim, porque voltar vivo da guerra é quase um fracasso. O bom mesmo é morrer lutando pela "nossa liberdade". O sonho de todo veterano era ser comemorado no Memorial Day.

No mercado do Wal de vez em quanto me deparo com um veterano. Há dois tipos. Em um grupo estão as pessoas que geralmente se comunicam, perguntam alguma coisa e puxam papo. Normalmente estão bem vestidas e foram oficiais em alguma guerra - embora todos os veterenos que tenham me perguntado onde fica o cool whip tenham ido às vias de fato apenas com os vietnamitas. No outro grupo estão senhores quase maltrapilhos, sempre com barba por fazer, roupas por lavar e alguns adereços militares pendendo de jaquetas mais que surradas. Quase não falam e nas poucas vezes que me dirigem a palavra é para reclamar do preço. Quando percebem que sou estrangeiro, cortam o assunto e seguem adiante.

Os do primeiro grupo sempre perguntam de onde sou ou tentam advinhar - em geral chutam que sou francês ou alemão. Já fui taxado de francês três vezes e de alemão, duas. Dois deles até já estiveram no Brasil e amaram, mas ficaram assustados com a pobreza nas ruas. Ambos acompanham o Brasil de hoje e se disseram impressionado com as mudanças dos últimos 10 ou 15 anos. Um até falou 'a América precisa tomar cuidado com o Brasil'. Uma declaração de sentido duplo que, vinda de um veterano de guerra, me fez quase mijar nas calças. Vamos ser invadidos a qualquer hora.

De volta ao Memorial Day. O que fazer no feriado. Os cemitérios ficam lotados e em todos os túmulos de militares há bandeirinhas do país. Às 3 da tarde acontece um momento especial de lembrança, uma espécie de prece coletiva. Mas ir ao cemitério é apenas o plano C, na prática, como o feriado é sempre numa segunda-feira e estamos na primavera, vai todo mundo aproveitar o feriadão. Curtir o dia é o plano B.

O que realmente se faz no Memorial Day, o verdadeiro plano A, é, vejam só, compras. Sim, compras. Todos os meios de comunicação passaram a última semana bombardeando os possíveis compradores com as ofertas que vão acontecer exclusivamente neste feriado. Hoje você pode, por exemplo, comprar uma cama com 15 anos de garantia e fazer o primeiro pagamento apenas em 2011. E sem juros, viu?

A febre do consumo é tamanha que séries e mais séries de cupons são produzidos com validade exclusiva para o Memorial Day. A Isinha, claro, já tem o dela. Como já disse, os cupons te fazem escravo, você está obrigado a comprar. A Isa fez umas contas mirabolantes - eu não entendi porra nenhuma, mas ela jura que vai ser isso mesmo - e vai comprar produtos na Bath and Bady Works no valor de US$ 73, mas só vai pagar US$ 31,50 graças às promoções do dia e ao cupom do Memorial Day. Vai à loja com a lista em mãos. Vamos ter sabonetes para todos os usos e gostos, inclusive, acreditem, um específico para lavar pentelho - masculino e feminino.


Beijos e saudades,

imagem: www.soldiersperspective.us