sábado, 24 de outubro de 2009

NC State Fair and U2 de graça



Ontem foi dia de folga por aqui. Isa saiu mais cedo da escola, assim como a Pequena. Eu já estava off no Wal e fomos todos para a North Carolina State Fair. É a boa e velha pecuária que acontece em boa parte do Brasil.

A feira foi em Raleigh, a capital do estado. Quando o GPS apontava que faltavam duas milhas para o local começou o engarrafamento. O tempo passando, o carro andando de metro em metro e a paisagem começa a ficar conhecida. Mais alguns minutos de engarrafamento e a Isa matou a dúvida: a feira acontece no mesmo local onde foi o show do U2. O show foi no estádio da universidade e a feira na área ao lado. O engarramento, pelo visto, é tradição naquelas bandas.

Confira as fotos da feira na galeria ao lado, muito artesanato e comida caseira (mas o patrocínio era do McDonald's). Já que o U2 entrou na postagem sem ser convidado, adianto que domingo tem show deles de graça para boa parte do mundo, inclusive aí no Brasil. É o show de Los Angeles que terá transmissão ao vivo pelo youtube, na madrugada de domingo para segunda, às 01h30 de Brasília e 00h30 de Salvador. Clique aqui para ir direto para a página especial montada para a transmissão, and have fun!!!

Beijos e saudades,

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Bono, de novo, e com óculos


A má notícia: eu não consegui beijar o Bono. A boa? A Isa também não. E vice-versa, que toda recíproca tem seu fundinho de verdade.

E lá fomos nós para o show do U2. Esse era um dos planos meu e da Isa para nossa temporada na terra-do-esmalte-que-fica-três-meses-na-unha. Quando anunciaram a turnê eu e a Isinha corremos para descobrir o local mais próximo. Seria Atlanta, a seis horas de carro daqui. Tudo bem, dá para encarar. Quase compramos o ingresso, mas decidimos esperar um pouco para tentar achar um preço melhor em outro site que não o Ticketmaster. É uma máfia esse negócio de ingresso aqui, tudo tem que ser feito pelo Ticketmaster. Fomos à bilheteria da casa de espetáculos onde vai acontecer o show da Miley Cyrus/Hannah Montana em novembro (presente de Dia das Crianças) e os caras mandaram a gente comprar o ingresso no Ticketmaster, pode? No show do U2, por exemplo, o ingresso custava $95, mas tem de comprar pelo Ticketmaster e pagar mais $12,50 de 'taxa de conveniência'. Ora, pois, conveniência de quem?

No da Miley, fomos em carne e osso lá no Coliseum e tinha de comprar no Ticketmaster. Ou seja, pagar a tal 'taxa de conveniência'. Pior, eles nem enviaram o ingresso pelo correio, ao contrário do show do U2. No dia do show a Isa tem de apresentar o cartão bancário usado na compra eletrônica na bilheteria para receber os ingressos. Que porra de conveniência é essa?

De volta ao U2, que já estou ficando revoltado com o Ticketmaster de novo. Isso não é bom nessa fase em que me recupero de um rotavírus adquirido na semana passada. Se ficar nervoso demais posso melar a cueca. E sou eu quem lavo.

Foi sábia a decisão de não comprar as entradas para Atlanta, porque dias depois anunciaram a ampliação da turnê, que passou a incluir Raleigh, a apenas uma hora e quarenta minutos daqui.

Deu trabalho esconder tudo da Marisa, porque ela também gosta dos caras. Compramos os tíquetes em abril. Tivemos de inventar que o show era impróprio para menores de 14 anos. Mas toda vez que a gente ouvia U2 ela dizia: papai, não acredito que vai ter um show do U2 aqui e você vai perder. Eu dizia que o show era num sábado, e eu sempre trabalho aos sábados. De fato, no sábado do show eu trabalhei até às 15h00, o concerto era as 19h00. Isa e Florzinha me buscaram no Wal e seguimos viagem. Passamos rapidamente no hotel, para tirar o cheiro de leite do corpo e dar o ingresso de presente à Pequena (confira o momento exato na mensagem anterior), e já antes das 18h00 estávamos no engarrafamento rumo ao estádio.

O trânsito parado. O ponteiro andando. A galera começou a jogar o carro no mato e seguir a pé. E eu nervoso. Só faltava essa, perder o terceiro show do U2, mas agora com o ingresso na mão. E tome gente passando nosso carro a pé. Até um mendigo - aqui os mentigos usam plaquinhas e ficam quietinhos, é você que tem de ir até ele - que estava uns três quilômetros atrás passou a gente. E eu nervosíssimo já, mas estou de carona e como convidado, então fico calado. Quando faltavam 15 minutos para começar o show, a Isa pergunta: será que a gente deixa o carro por aqui? Corre o risco de ser multado. Caramba, Isinha, pensei que você nunca ia vislumbrar essa possibilidade, eu já tilha largado esse carro meia hora atrás!

Seguimos andando. Caminhando e cantando, como diz a canção. Chegamos pelo lado errado do estádio e tivemos de dar a volta inteirinha nele. Vinte minutos depois das sete estávamos acomodados. Antes do U2 tocou o Muse. Conheçe? Nem eu. Nem a Isa. Mas a Marisa conhece e ainda cantou. Só que encheu o saco: tá bom de Muse, né? Eu vim aqui para ver o U2! Nunca duvide do rock que corre nas veias de uma moleca de 11 anos. Ela ficou revoltada porque não sabia todas as letras do disco novo, No Line on the Horizon.

O show foi fantástico. Teve até lua cheia e música incidental só para ela. Literalmente, sem palavras. Então, vou pular essa parte e finalizar com dois breves causus. O primeiro deles é que compramos um ingresso caro para ficarmos calmamente e confortavelmente sentados por causa da Marisa, já que seria o primeiro mega-show da Pequena e não queria que ela se assustasse ou fosse pisoteada em meio à multidão. Pois sim, quanto tocou Elevation, a música preferida da guria, ela olha para o povo lá embaixo e diz: olha lá, todo mundo pulando, lá no chão é muito mais animado do que aqui em cima... E eu doido para estar lá também, e custaria um terço do preço que pagamos para ficar onde estávamos. Nunca duvide do rock em veias juvenis.

E, por fim, esses óculos que você vê na foto. Iguaizinhos aos do Bono. A Isa me deu no dia do show. Devem ter custado os olhos da cara. Estavam enrolados na camiseta com a foto do Bono, que ela também me deu de presente. Tudo isso para irmos ao show do U2, para vermos o Bono cantar e fazer o seu politicamente correto discurso. O show rolando, a Isa olha a camiseta, sobe o olhar para os óculos e começa a me beijar. Eu na minha, curtindo o show. Ela olha a imagem do Bono no telão do tamanho do nosso apartamento, olha de novo a foto do Bono na camiseta, olha para mim com os óculos do Bono e me lasca outro beijo.

Acho que só eu não beijei o Bono naquela noite. Eu era mais feliz quando Bono era apenas um biscoito reacheado que a pré-diabetes me impedia de comer.

Beijos e saudades,

domingo, 4 de outubro de 2009

U2: Momento Mastercard

INGRESSOS: 320 dólares
HOTEL: 61 dólares
CAMISETAS: 20 dólares
COMBUSTÍVEL: 17 dólares
POSTER: 10 dólares
ALIMENTAÇÃO: 40 dólares
CHORO DE FELICIDADE: não tem preço
FAZER TUDO ISSO ÀS CUSTAS DA MULHER: !!!!!!!!!!!!!


sábado, 3 de outubro de 2009

O beijo no Bono


Estamos em viagem. Estou no carro neste momento. A Isa dirige, a Marisa ouve música em seu MP3, apesar de haver som no carro. É a pré-adolescência que invadiu nossas vidas. Vamos a Raleigh, capital da Carolina do Norte. Hoje tem show do U2 e eu finalmente vou conseguir ir.

Foi preciso viajar mais de 10 mil quilômetros para finalmente estar em meio à multidão num show desses caras. Nas duas apresentações no Brasil não deu certo para mim. A primeira delas foi em fevereiro de 1998. A Isa estava gravida de oito meses e insistia para que eu fosse. E eu estava empolgadíssimo, vi ingresso, passagem, hotel em Sampa e tudo mais. E fiz tudo sozinho, que naquela época eu não dependia dela financeiramente, como agora. Na hora de fechar o pacote bateu a dúvida: e se a Marisa nasce enquanto eu estiver no show? Eu não fui, Marisa também não nasceu. Aguardou mais uns dias e pousou em 29 de março. Mas ao menos eu escapei de criar um trauma na menina antes mesmo do nascimento. E aí Marisa, o que seus pais contam do seu nascimento. Minha mãe lembrar de estar sozinha no hospital; meu pai não lembra de nada, porque preferiu ir a um show.

No segundo, creio que em 2006 (nenhum filho meu nasceu perto do segundo show, então, não lebmbro com clareza), compromissos profissionais me fizeram dar o segundo bolo no quarteto de Dublin. Mas agora vai. E vai ser melhor ainda, porque a Isa e a Florzinha também vão. Aliás, a Marisa nem sabe ainda. Inventamos uma mentirinha de que iríamos a uma festa na casa de uma amiga da Isa. Quero só ver a cara dela na hora que chegarmos ao show.

Não sei se alguém lembra, mas no segundo show no Brasil houve um pequena polêmica porque o Bono chamou uma moça ao palco e lascou um beijo nela. Ou foi o contrário, realmente não lembro. É mais provável que ele tenha sido passivo. O fato é que a jovem era casada e foi a novela sobre a 'traição'.

Pois sim, a Isa está jurando que vai beijar o Bono também. Os ingressos foram comprados em abril e eu passei seis meses ouvindo isso: vou beijar o Bono. Eu realmente não me oponho e até incentivei. Só digo uma coisa: ela vai ter de chegar nele antes de mim!

Beijos e saudades,

imagem: www.musica.terra.com.br

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sobre carros, policiais e loucos


Hoje é o Dia Mundial sem Carro. Claro, ninguém sequer ouviu falar nos Estados Unidos. Dei uma zapeada nos sites de notícia e nada. Para não dizer que o meio ambiente está completamente fora das manchetes, há referências ao encontro sobre mudança climática, que acontece em Nova Iorque e do qual participa o hiper, o super, o mega, o power, o Obama.

Mesmo que a terra-do-carro-que-faz-5-quilômetros-por-litro, ao contrário de boa parte da Europa e - espero! - do Brasil, não comemore o Dia, eu e Marisa resolvemos largar o veículo na garagem. A Isa, coitada, ficou de fora porque trabalha a 40 quilômetros de casa e aqui simplesmente não há transporte público. Ou você tem carro, ou tem carro. De fato, todo mundo tem carro. Até os homeless que pedem esmola nos semáforos de Greensboro, a cidade grande perto daqui, entram no seu Nissan ou Honda e vão para casa no fim do expediente. Para mim ficou mais fácil, porque hoje estou de folga do mercado do Wal e só tenho de levar e buscar a Florzinha na escola.

O colégio fica a 15 minutos de caminhada daqui. Daria, tranquilamente, para a Pequena ir e voltar sozinha, mas faço questão de levar e buscar. Não é por medo de assalto ou algo assim, porque aqui o que não falta é policial. Deve ter uns três policiais para cada bandido por aqui. Parece que eles nascem em árvore. Achar um cana é fácil. Não, não procure um posto policial. Eles, aliás, sequer existem. Os policiais estão sempre na rua, disfaçados de postes ou em carros caracterizados ou não. A melhor forma de encontrar um policial é ultrapassar da velocidade limite.

Duas semanas atrás estava atrasado para o trabalho e trafegava a 75 milhas por hora numa pista de 65. Há uma tolerância de cinco pontos, então, eu poderia estar a 70 mph. Ainda sobravam cinco milhas, mas resolvi ariscar. Dito e feito, tinha um carro da polícia estacionado no acostamento. Pensei, fudeu, vou acabar preso, eu e meu inglês. O carro saiu do meio-fio e colou na minha traseira. Como ele não ligou aquelas luzinhas, eu reduzi a velocidade e fui adiante. Pois o cara me segui por dez minutos até o estacionamento do Wal. E parou atrás de mim. Bonito, vou ser preso na frente de todos os colegas de trabalho. Mas quando eu sai do carro, de uniforme e crachá, o policial, muito educadamente, me desejou um bom dia de labuta e foi embora. Valeu o susto, porque agora só ando no limite certinho.

Então, não me preocupa que Marisa seja assaltada no trajeto casa-escola-casa. Tenho, sim, medo dos loucos. Este é um país de loucos. Loucos, loucos mesmo, daqueles que parecem normalíssimos, mas no íntimo sequestram e matam só para fazer algo diferente. O Discovery é meu canal de TV preferido e lá, além do Haunting, há um programa chamado The FBI Files. É examente sobre os loucos que são presos semanalmente. Gente normal, que te dá bom dia no Wal e depois vai caçar uns humanos porque a temporada de veados só reabre no próximo ano. Há três meses, o programa mostrou o caso de um vizinho nosso aqui de Asheboro que matou não sei quantas mulheres. Ele era caminhoneiro e, aporrinhado das pistas quádruplas e da falta de buracos nas estradas norte-americanas, resolveu sequestrar e estuprar mulheres pela Carolina do Norte e estados vizinhos. Depois de satisfeito, ele as deitava numa das saídas de rodovia e passava o caminhão por cima. E ainda dava ré.

Pois sim, o problema do Dia Mundial sem Carro é que justamente hoje eu tinha combinado de almoçar com a Florzinha na escola. Ou seja, eu andei meia hora para levá-la às 08h00, mais meia hora para ir almoçar às 11h20 e outros 30 minutos para buscá-la às 15h30. Uma hora e meia andando. Dia mundial sem carro e sem barriga.

Beijos e saudades, até dos engarrafamentos na Estrutural e na Paralela, além dos jegues no trânsito de Feira de Santana.

Imagem: www.conorclarke.net

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O dente vai bem, mas o bolso...


Acabo de ir ao dentista.

Foi, na verdade, a segunda vez. Há cerca de dois meses estive lá para fazer uma limpeza. E fui sozinho. Eu e meu inglês. Até que sobrevivemos bem, conseguimos dizer não a todos os tratamentos revolucionários que nos ofereceram e me ative, com o inglês ao meu lado, de boca aberta e bolso vazio, exatamente à limpeza, que era gratuita, conforme reza o contrado do seguro dentário que a Isa me deu de presente. E ainda ganhei uma escova elétrica, uma pasta de dentes, ou dentifrício, como diria Nelson Rodrigues, e um fio dental revolucionário, que não solta tiras, não tem cheiro e nem deforma. Você usa e ele fica do mesmo jeitinho. Vi o preço no mercado do Wal. Precisaria trabalhar duas horas e 14 minutos para pagar um rolo de 20 metros. Passei a usar o mesmo pedaço no almoço e no jantar. Mas guardo numa caixinha esterilizada, que higiene vem em primeiro lugar.

E foi esta primeira ida ao dentista que me abriu os olhos para a banguela dos norte-americanos. Um colega do Wal tinha pedido para que eu o substituísse e respondi que não poderia porque, na manhã em questão, tinha consulta no dentista. A pergunta dele me intrigou: "e você tem dinheiro para ir ao dentista?". Eu fiquei sem graça e pensei em dizer que meu irmão era dentista, mas depois lembrei que o dr. Téo está a mais de 10 mil quilômetros de distância e não colaria. Daí, mais constrangido ainda, eu confessei: eu vivo às custas da minha mulher, é ela que paga as contas e ainda me deu um seguro dentário de presente. Nem de rufião particular posso ser acusado, porque em troca a ela basta escrever no blog. É por isso que postei sexta-feira e hoje, tenho de mostrar serviço em casa, tenho de chegar junto, comparecer.

Ela tem dinheiro, eu não. Mas tenho dentes, e um deles começou a me incomodar. Sabe aquela dor que não é dor? Só um leve incômodo. Vez ou outra, quando mastigo, ele dá sinal de vida. Começou há umas quatro semanas, depois passou, voltou, passou e voltou de novo. E eu quito, bico fechado. É que seguro dentário reduz a conta, mas você ainda paga. Depois pensei, quando mais tempo passa, pode ficar pior e mais caro. Confessei a quase-dor e a Isa marcou a consulta.

A clínica é ultra moderna, parece consultório espacial, cheio de equipamentos, computadores, telas. Tudo do bom e do melhor para torturas coletivas e a minha em particular. Foi quando já estava na cadeira com babador e tudo que me veio o dilema: e se doer? Ter irmão dentista é essencial nestas horas, sempre abri a boca sem medo, agora estou aqui de boca aberta para um gringo. Uma gringa, na verdade. É que o dentista em si é uma espécie de Deus e há o risco de você sequer ser atendido por ele durante a consulta ou mesmo tratamento. A limpeza de há dois meses, por exemplo, foi toda feita por uma das moças. São cinco consultórios na clínica e apenas um dentista. As moças fazem tudo, tudo mesmo, até pôr o amálgama. Ele desce do trono, dá um OK e volta para uma salinha secreta. Ninguém sabe o que acontece na sala do dentista.

Pois sim, para resumir: meu dente está bem, o próprio dentista conferiu, depois da mocinha, e disse que nada há. Não foi preciso broca ou qualquer outro aparelho ultra-pós-moderno. Aliás, a mocinha bateu um raio-X, mas nem precisou revelar, porque agora a imagem aparece direto na dela do computador. A Kodak vai falir. E a garantia de que nada há me custou (ou à Isa) 30 dólares. E isso com o seguro. Sem o seguro? Separe 97 verdinhas, ou quase 200 reais. Um amigo nosso teve de fazer um canal. Quatro mil dólares! Mas ele tinha seguro (não sei se a Isa deu para ele também) e pagou apenas 800. Desconheço o preço de um canal no Brasil - ter irmão dentista tem diversas vantagens, mas dúvido que chege aos cerca de oito mil reais daqui.

Se eu tiver que fazer um canal na terra-do-dentista-fantasma, sai mais em conta comprar passagem e ir ao consultório do dr. Téo. Agora eu entendo não só porque meu Wal-friend perguntou se eu tinha dinheiro para ir ao dentista como também porque há tanto gringo sem dente por estas bandas da verdadeira América.

Beijos e saudades,

Imagem: www.blogdaries.blogspot.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A pedidos



Eu disse ‘a pedidos’, mas o título correto seria ‘de ordem’.

Escreva no blog.

Escreva no blog.

Esta foi a última coisa que a Isa me disse ontem à noite. Na cama. Se fosse no café da manhã, tudo bem, o comentário entrava pelo canal auditivo direito, ecoaria no vácuo em que o mestrado transformou a massa cinzenta e sairia, lépido e livre, pela orelha esquerda. Mas foi na cama.

Quem é ou foi casado – e hoje é melhor usar outro verbo e dizer apenas ‘estou’ casado, porque o casamento virou condição temporária – sabe que ninguém fala besteira na cama. Ou melhor, as besteiras que se dizem na cama são as mais importantes, porque sem elas não há casamento que dure. No duro. E sem o duro, ah, meu amigo, sem ele o casamento é duríssmo, é o mesmo que morar com a mãe aos 40. Pior, porque mãe que é mãe sabe fazer sopa de feijão e nunca tem dor de cabeça.

Podia ter sido em um dos vários telefonemas que trocamos durante o dia. Nestas horas a gente fala de coisas rotineiras, lembra de uma conta a pagar (essa parte é mais monólogo, porque eu estou aqui a convite e passeio, portanto, não tenho qualquer conta a pagar), recorda que esqueceu mais um aniversário de alguém querido no Brasil, discute a última da Marisa, ou até planeja o que vai fazer para o jantar. Aliás, sobre jantar, aqui eles não cozinham ou preparam o jantar. Eles ‘fix’ o jantar. Um amigo do Wal, também casado, de vez em quando comenta o que jantou: ontem à noite a gente fixed macarrão. Coitado, a esposa cozinha tão mal que ele tem de consertar depois.

Mas também não foi no jantar que a Isa pediu para blogar algo. Foi na cama. E bem naquelas horas, sabe? Tem mulher que fala de tudo nestas horas, grita adjetivos absurdos, inventa metáforas desconsertantes, ameaça te matar, diz palavrões que deixariam enrubecidos Boccaccio (a fama é injusta), Nelson Rodrigues (na verdade, um reacionário assumido) e Carlos Zéfiro (esse sim um mestre da sacanagem). A minha fala: escreva no blog.

Tá imaginando a cena? Por favor, faça a reconstituição mental. Você lá bem naquela hora, a coisa quase acontecendo, o sangue descendo, você suado, jurando que está mandando muito bem, seus escrotinhos trabalhando a mil para fazer uma boa entrega, e a sua esposa grita: escreva no blog, escreva no blooooooog!!!!

Escreva no blog? Tá (me) gozando? Isso é coisa que se diga na cama? Claro, não preguei o olho a noite toda. E tenho de trabalhar daqui a três horas. Antes disso preciso terminar um dos apêndices da dissertação do mestrado, um trechinho de nada que está empacado há vários dias. E ainda tenho de lavar o banheiro, além da louça do jantar e café da manhã. Mas isso é pouco. Virou bobagem, querela pequena, de menos. Aliás, tudo isso agora é nada, porque a constatação é cabal e definitiva: ela tem mais prazer me lendo do que me comendo.

Alguém tem uma boa indicação de terapeuta na Carolina do Norte? Em último caso, vale até o telefone do Boston Medical Group mais próximo.

Beijos e saudades. Vou à CVS Pharmacy tentar comprar viagra sem a receita.

Imagem: Zéfiro, disponível em www.lambiek.net/artists/z/zefiro_carlos.htm