terça-feira, 12 de maio de 2009

Bateu asas e voltou



A foto é da Marisa e resume o que se vive hoje nos Estados Unidos: uma nação boquiaberta diante do riso fácil do Presidente.

Marisa está de volta. Washington já é ontem, tanto passado que ela até visitou a tumba (confira à esquerda). Trouxe histórias para contar - teve até ônibus quebrado à noite, fotos e a câmera (ufa), dois lápis para a coleção pessoal e um par de camisetas para os pais. Mais, retornou com 70% doa recursos oferecidos pela Isinha para que ela aproveitasse os dias na capital. Inocente, ela entregou o dinheiro para mim, para que eu devolvesse à mãe. Graças à Marisete esta semana vou ao cinema e até pipoca vou comer! Não vai ser a primeira vez que a Florzinha me banca. Há duas semanas, estava eu ajudando como voluntário na Feira do Livro da escola quando a Pequena surge e me chama para comermos juntos. Lá fui eu todo feliz almoçar as porcarias que eles servem no colégio. Na hora de pagar, "pode deixar, papai. Moça, põe na minha conta, por favor". Vejam a minha situação, minha filhota de 11 anos me chama para almoçar e ainda paga a conta...

De cá, que permite um ângulo diferente ao daí, fico imaginando se o Presidente tem noção do tamanho da figura dele. Na foto, parece enorme, mas a imagem não é real. Obama virou gigante. É maior que a Casa Branca, que Washington, que toda a América - como aqui eles insistem em chamar o país, como se fossem os Estados Unidos o único do continente. Esse moço ganhou uma dimensão messiânica, o afago que ele faz na aluna da Siler City Elementary é em um mundo inteiro de minorias que se sente representado pelo Presidente. Barack não é Estados Unidos, Barack é México, é África.

E é isso que a mim mais me preocupa, e me permitam a mim o duplo pleonasmo. Qualquer um que chega ao poder na condição de salvador me deixa apreensivo. O roteiro não é novo, dá até para classificar como remake - eles também copiam histórias que nem terminaram, mas ao contrário da falta de criatividade hollywoodiana, agora o final é incerto.

Beijos e saudades,

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Vai um cupomzinho aí?



Os Estados Unidos podem ser definidos de várias formas, o país do fast food, a terra das oportunidades, a paixão pelos carros, a loucura para sempre comprar mais, a torcida fanática do basquete. No entanto, só morando aqui é que a gente descobre a verdade: este é o país dos cupons.

Tem cupom para tudo, para desconto no papel higiênico, para ganhar brinde na sorveteria, para baixar o preço do sabão em pó - que aqui é líquido, para dobrar o tamanho do seu hambúrger, para deixar a patroa mais ajeitada. E eles se reproduzem. Uma vez dentro do mundo dos cupons, você jamais sairá dele.

A Isa, que consegue bancar as próprias contas e ainda me dá uma mesada, habita o planeta cupom. Os que ela mais usa são da Bath & Bady Works, uma espécie de Avon que queria ser Victoria Secret. Funciona assim: você faz uma compra e recebe um cupom para sua próxima ida à loja. Desta forma, se você comprar US$ 30, recebe US$ 10 de desconto. Na melhor compra com cupons feita lá, no Natal, Isinha trouxe uns sabonetes de US$ 5 cada por US$ 1,80. Graças ao cupom, temos sabonete aqui em casa até 2014. Ou melhor, aqui em casa e aí em casa, porque vamos ter de voltar com as malas cheias de sabonete.

A coisa é tão bem feita que a Isa praticamente se vê obrigada a ir todos os meses à Bath & Body Works para aproveitar os descontos. Os cupons têm datas de validade, podem ser usados em um intervalo que varia de três a 15 dias, mas quase sempre no mês seguinte ao que você faz a compra. Camarada, quem inventou a Amway não ia deixar barato algo que parece de graça. Os cupons fazem a mercadoria girar e sempre levam gente às lojas, que acabam comprando mais do que queriam ou precisam.

No mercado do Walter eu vejo cenas hilárias de gente perdendo cinco, dez minutos para casar o produto com o cupom. É difícil achar o papelzinho certo, que em geral está em um bolo com dezenas ou centenas de outros. Claro, há os organizados, que têm pastinhas com os cupons catalogados e divididos por produtos os fabricantes. Alguns são revoltados, como o cara que tinha o cupom para comprar o ceral e ganhar o iogurte da mesma marca, mas nós não tínhamos o iogurte e ele queria que a gente parasse de vender também o ceral para não fazê-lo passar raiva. E há os solidários, esses são os que mais me divertem. Tem alguém olhando o produto X na prateleira e aquela senhora de boa alma chega e diz: "olha só, eu tenho um cupom para esse xampu, tá aqui, é seu". Na prática, de cupom em cupom há famílias que chegam a economizar 25% nas compras de mercado, já que os descontos são reais.

Ah, e não são só descontos, tem coisa de graça também. Ontem a Isa ganhou de uma professora um cupom para o novo prato do cardápio do KFC, Kentucky Fried Chicken - aqueles frangos fritos que não têm uma gota de colesterol, e sim litros. E lá fomos eu e ela para o KFC comer de graça. Mas sabe como é, né? Dá uma desconfiança... Eu perguntei "Isinha, será que vai ser de graça mesmo, tô com medo de passar vergonha com esse trem na mão...". Pois bem, quando eu abro a porta da lanchonete, candangos e baianos, tinha uma fila de 20 pessoas com os cupons na mão. Todo mundo querendo seu franguinho, com batatas e salada de repolho, de graça. O cupom - impresso a partir de um site - só valia para ontem. Até que estava bom, mas desta vez o cupom falhou, o FKC não faz parte de nossa lista de fast food.

sogra, unanimidade mundial



O Oraite vai voltar a ser rotina. Os quase dois meses de ausência são plenamente explicáveis: é exatamente o período que a mãe da Isinha passou aqui conosco. Mainha, que certamente é a melhor sogra do mundo, sempre me ensinou a guardar o silêncio se não houver nada de bom a ser dito. Foi melhor, então, manter o teclado no saco durante a estadia da Sogra.

Eu já disse que faço um curso de inglês no Community College? O nome é Advanced Writing and Conversation in English. Pois é, fiz uma prova de nivelamento e o computador, mais preocupado em olhar o cabo da nova impressora, me nivelou como adivancedi. Mas não era do meu nível adivancedi de inglês que eu queria falar, e sim sobre a sogra.

Como os 25.003 moradores de Asheboro têm uma vida social, noturna e cultural tão repleta de atividades e emoções que a cidade deveria se chamar Asheboring, eu decedi levar a Sogra para as aulas, que acontecem todas as manhãs das 09h30 às 12h30. Aliás, aconteciam. Hoje foi o último dia do curso de inverno. Vou saltar o curso de verão, já que a Florzinha vai ao Brasil aproveitarei para adiantar uma matéria no mestrado, e devo voltar no outono. Sou obrigado a abrir o parêntese. Como é diferente viver em um local com quatro estações. Tudo aqui acontece de acordo com a época do ano, desde o que você come ou veste, passando pelo quê está nas prateleiras no mercado do Walter até as piadas contadas pelos corredores e quantas vezes se faz sexo. Graças a Deus, o inverno já passou. É por isso que o povo se mata no frio, ninguém trepa. Fecha parênteses.

A sogra e o community college. A turma é uma loucura, tem gente de todos os continentes, de Butão à Suécia. Se as regras de crase mudaram com a reforma ortográfica, alguém por favor me avise. Do Brasil só eu mesmo. Antes de levar a sogra pedi autorização ao professor norte-americano e avisei aos colegas multinacionais. Eis aqui o maior aprendizado que tive no curso de adivancedi English: sogra é sogra em qualquer lugar do planeta. Eu achei que fosse coisa de brasileiro, no máximo do Ocidente, implicar com a mãe alheia. Pura inocência. No Japão, aquela ilhazinha minúscula com milhões de pessoas, eles desejam à sogra o que há de mais caro no país: um pedaço de terra só dela. Na China, uma imensidão de terra, eles não querem a sogra em um lote de 2X1, mas sim em um lindo pote de porcela no jardim no quintal. Em alguns países andinos há quem plante pés de coca na casa da sogra para ajudá-la a ter uma renda extra, mas o caso sempre termina mal porque a polícia invariavelmente recebe uma denúncia anônima. E por aí vai.

Mas há aquele colega do Vietnã. A Carolina do Norte é sede de um enorme grupo de refugiados políticos do Vietnã. E o meu amigo vietnamita, adjetivo pátrio não é meu forte, disse que amava a mãe da esposa. "Sim, sim, sim, pessoa maravilhosa, querida por todos". Eu achei estranhíssimo e insisti: "mas você gosta mesmo da sua sogra, ela é uma pessoa tão boa assim?". "É o que todo mundo diz, eu não a conheci, ela morreu antes de eu conhecer minha esposa". Assim, sim.

Beijos e saudades,

PS.: A Isa sugere que eu escreva que é tudo brincadeira. Tá escrito, viu, mô? Hoje é sexta-feira, eu tô de folga do mercado do Wal, a Marisa está em Washington e, vejam só, é primavera...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ninho vazio


Olá, pessoas!

Pois estamos sós em casa, eu e a Isa. E o gato, é claro. Há sempre o gato. Marisa partiu esta manhã, rumo à capital. Foi com toda a turma da escola, é a viagem de formatura da quinta série. O ano escolar está perto do fim, vai até 10 de junho. Voltam na sexta-feira à noite. Até lá eu e Isa somos os fiéis depositários do gato, que temos de alimentar, acarinhar e, vida dura, limpar a bosta e o mijo.

Minha intenção inicial era deixar só para a Isa a missão de cuidar do felino. Carinho e alimentação vá lá, mas cocô a gente só limpa o dos filhos e ninguém me diga que não tinha uma pontinha de asco. Consegui até os três dias de folga no Wal-Mart para embarcar como 'pai assistente' na field trip da Pequena. Ia pagar tudo sozinho (coisa raríssima para mim na terra-do-cachorro-quente-sem-molho, até o presente do Dia das Mães foi debitado na conta da Isa, ops, tomara que ela não leia...) com os pennies que conservo em um garrafão de vinho sobre a mesa. Ia ser moleza, ficar responsável por quatro meninos de 11 anos e de lambuja conhecer Washington ao lado da filhota. Um pequeno detalhe impediu a viagem: fui barrado.

Ter o acesso negado nunca é bom, mas ser barrado pela própria filha é novidade para mim. Já fui impedido de entrar em cinema, em festa e até na área reservada aos carros da Stockcar no autódromo de Brasília - tinha de conferir o boato de que um competidor estampava um anúncio não solicitado pela CEB, tudo bem, subi em uma laje e vi todos os carrinhos. Disse-me a Florzinha, em tom dompedriano, que precisa fazer algo sozinha para ganhar independência. Ela tem 11 anos!!!!!!!!!!! Onze anos e 39 dias para ser exato. Temo não estar pronto para ser pai de uma adolescente.

Beijos e saudades,

PS.: A mesma Marisete segue em 18 de junho para Salvador, Feira de Santana, João Pessoa, Brasília, Caldas Novas e o que aparecer até 12 de agosto, quando retorna para cá. Essa mocinha está independente até demais.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sobre dependência e vinho


Pois bem, vou cortar o blá-blá-blá sobre os motivos que provocaram esta pausa entre a mensagem anterior e esta e as promessas de escrever com frequência para dizer o que realmente interessa: são 23h55 de uma sexta-feira sem Wal-Mart e a Isa dorme desde 17h30.

Sextas-feiras de folga no Wal-Mart são raras, mas também não é isso que interessa: tenho quatro textos prontos para postar no mestrado, mas não tenho coragem de fazê-lo sem o okay (é assim que eles usam aqui. Práticos em quase tudo, os norte-americanos conseguiram dobrar de tamanho o simples OK) da professora de inglês. Eu, que sempre editei, sou agora editado, e sempre. E sempre.

A sensação de dependência é algo curioso. Aqui sou café-com-leite, como também o era no mãe da rua de 78, e se você não cresceu entre os menos de 100 metros da Rua Rio Grande vai ter de descobrir o que a expressão significa. O bom é que, além da certeza de que é uma situação temporária, dependo da única pessoa com quem sempre dividi (des)crenças e angústias: dona Isabelita Solano Mendes, que por opção e contra a minha vontade em 95 passou a usar o Peixoto.

Me resta a feliz companhia de um esvaziante pinot noir californiano, Ella Fitzgerald, Diana Krall, Madeleine Peyroux e da Bravo de novembro/08 - presente perfeito enviado de Brasília. E um imprevisto tempo livre para ressuscitar o Oraite. Como disse o poeta feirense em um e-mail 'vida longa ao Oraite'. E acrescento: que venha a geração espontânea, porque se depender de tempo para postagens é preciso apostar no sono da Isa. Moleza, pule de dez.

Na foto, tudo o que vejo neste momento da poltrona que o gato mui gentilmente me permitiu usar hoje. São 00:10 do sábado 14, dia de Wal-Mart.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Do dia em que estive na mira de um rifle


O tornado virou fichinha.

Minha segunda, e real, experiência de quase-morte nos Estados Unidos foi muito mais tensa do que o aviso de tornado de setembro. Nem deu tempo de maldizer as moças do Visa. Aliás, sobre Elas, a Isa sucumbiu, aceitou uma proposta e já circula pelos shoppings da Carolina do Norte com um cartão de crédito. O bom é que agora a fatura do cartão DELA não está em débito automático na MINHA conta bancária!!! Eu mantenho a decisão franciscana de desapego nesta aventura na terra do consumo. Fiz até a Isa devolver duas camisas que havia comprado para mim. Mas já estou fugindo ao tema. Quase-morte.

Foi exatamente há uma semana. Para entender é preciso retroceder mais um pouco. Marisa está, finalmente, sendo líder de torcida. Ela nos enche o saco com essa história há mais de um ano e agora conseguimos conciliar três agendas para permitir que a Pequena participe dos treinos nas noites de quinta-feira e dos jogos nas manhãs de sábado. E foi na noite da quinta passada.

A Isa tem aula de mestrado nas noites de quinta e é minha a função de levar, ajudar-a-arrumar-os-móveis-no-salão-da-igreja-onde-acontecem-os-treinos, assistir, torcer, pôr os móveis no lugar e trazer a Florizinha de volta para casa. Todo o processo leva cerca de duas horas. Em casa, ainda há a briga para tomar banho 'daqui a pouco'. Nesta, já virou hábito a Marisa não tomar banho às sextas-feiras. Tudo bem, puxou a mãe, né?

Pois bem, na semana passada eu tinha um compromisso inadiável na biblioteca, onde felizmente ainda consigo trabalhar como voluntário uma vez por semana, apesar das 32 horas de leite na prateleira do Wal-Mart, das 14 horas de aulas de inglês, das atividades domésticas, do mestrado, da vida social familiar e das funções matrimoniais. A ordem é inversa. A Pequena perderia o treino, justamente o último antes do primeiro jogo do campeonato. Convulsão social nesta pequena cidade do sul norte-americano. A celeuma foi tamanha que a treinadora se comprometeu a cuidar da Marisete e depois levá-la para sua casa, onde eu a buscaria.

Tudo combinado, endereço em mãos, claro, tive dificuldade para encontrar a casa. Aqui quase não há iluminação pública nas ruas (vou importar a equipe da SIP da CEB, vão fazer um estrago!). Quem quiser que ponha seu poste na porta de casa. E quase ninguém quer. Pois cheguei ao que achei ser o número certo e bati à porta. Eram pouco mais de nove da noite.

- Who is this?

- It's Marcio, Marisa's dad. I'm looking for English.

- What???

A porta foi aberta e dou de cara com um afro-americano de três metros de altura, voz de Heron Domingues, cara de nenhum amigo e, um detalhezinho de nada, um rifle em punhos.

- (puta-que-pariu-o-cara-tá-com-uma-espingarda-voltada-para-mim) ...English?

- No Spanish here, man!

- (será-que-está-carregada?Ele-está-com-o-dedo-no-gatilho) I'm looking for En-English...

- I told you, no Spanish here! No spanish here, this is America!

- (se-ele-atirar-ainda-vão-dizer-que-eu-queria-assaltar-a-casa) No, no, no Spanish. English, the name is English!

- SIR, I CANNOT SPEAK SPANISH!!!

- (o-Visa-que-eu-cancelei-tinha-seguro-de-vida-de-graça-e-eu-sempre-fui-tão-ríspido-com-aquelas-moças...) I can't speak Spanish either. I'm looking for English, English!

O nome da treinadora da Marisa é English. "Nice to meet you, Portuguese". A Isa riu, mas a English não gostou da piada. Na quinta-feira passada eu vi que não teve graça mesmo.

Beijos e saudades. Vou fazer aulas de espanhol.

Imagem: www.falconarmas.com.br

domingo, 1 de fevereiro de 2009

La boquita de la botella





Cronologia nunca foi meu forte e, portanto, aqui no Oraite o Ano Novo vem antes do Natal.

Passamos a virada do ano numa festa aqui no condomínio mesmo. Muito divertida, gente de boa parte das três Américas. O mais interessante foi perceber que talvez o Chavez não seja tão louco quanto parece e o Brasil tenha sim um quê de imperialista do sul. Para dar a dimensão da coisa, ouvimos na festa "La boquita de la botella". É isso mesmo, o povo dança na boquinha da garrafa em espanhol. Também ouvimos umas versões latinas da Xuxa e as pessoas sabem detalhes da vida do Roberto Carlos, e nem sempre detalhes tão pequenos.

Mas o melhor de tudo foi o meu fim de festa. Sem que a Isa percebesse, acabei a noite com duas no sofá!!!!

Beijos e saudades,